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Na História

Travessia do Atlântico a remo
Autor: Jaqueline Pedreira


100 dias no mar: Da África ao Brasil em um barco ao remo. »»»

Em 10 de junho de 1984, do porto de Lüderitz, na Namíbia (África), zarpava uma pequena embarcação com apenas seis metros de comprimento, movida a remos e com um único tripulante a bordo: o navegador brasileiro Amyr Klink. Tinha como destino o Brasil, que estava a 3.700 milhas náuticas além-mar. Feito que concluiu em 100 dias, 6 horas e 20 minutos. Um projeto que teve como únicas testemunhas as gaivotas, baleias, focas e... muitos tubarões.

O trajeto
Para tirar o máximo de proveito das correntes marítimas e dos ventos predominantes no Atlântico Sul, o trajeto a ser percorrido deveria ser determinado com muito cuidado. Os oceanos possuem sistemas de ventos e correntes distintos. E, no caso do Atlântico, essas correntes não possibilitariam que uma embarcação desse porte atravessasse pelo trajeto mais óbvio e curto, no caso de Serra Leoa, na África, ao cabo Calcanhar, no Rio Grande do Norte, uma distância de apenas 1.500 milhas náuticas. Nesse percurso, o pequeno barco estaria dentro de correntes que o impediriam de avançar na direção oeste e com certeza o levariam de volta à costa da África. Os estudos dos mapas de correntes e ventos do Atlântico Sul indicaram que remar em direção ao Brasil dentro da corrente de Benguela seria mais razoável, pois essa corrente sobe pela costa da África e gira em direção à Ilha de Santa Helena, no meio do Atlântico, juntando-se com a corrente subequatorial que lentamente chega à costa nordeste do Brasil.

Desta forma, seria muito mais provável o sucesso do projeto, pois não haveria a possibilidade de o barco ser empurrado de volta durante a noite, quando não estivesse sendo remado. Esse trajeto seria zarpar do porto de Lüderitz, na Namíbia, passar ao norte da ilha de Santa Helena e alcançar a costa brasileira em Salvador, Bahia, com um percurso total de 3.700 milhas náuticas.

A estratégia
Depois de estimar a travessia em mais de cem dias e por uma região onde estaria à mercê das mais variadas condições climáticas, um projeto de sobrevivência seria a chave do sucesso da empreitada. Centenas de detalhes deveriam ser considerados e discutidos para que nada fosse uma surpresa no meio do oceano. Tudo deveria ser estudado a ponto que, qualquer que fosse o problema, ele pudesse ser resolvido de imediato. Sem dúvida, um dos maiores desafios seria levar alimentação em quantidade suficiente e conservá-la de acordo, já que no barco mal existia espaço para o tripulante.

Esta difícil tarefa ficou a cargo de uma equipe de brilhantes nutricionistas que, com muito empenho e conhecimento, conseguiu não só resolver o problema do espaço necessário para toda a comida como previu as necessidades alimentares de alguém que estivesse tanto tempo no mar e fazendo tanto esforço físico. A questão do espaço foi resolvida com alimentos desidratados, acondicionados em pacotes que continham um cardápio completo para um dia. Dessa forma, cada embalagem era numerada para ser consumida de acordo com as necessidades de proteínas para cada etapa da viagem. Os alimentos desidratados contribuíam também com uma menor necessidade de água doce a bordo, pois eram preparados com água do mar.

A alimentação foi um dos maiores desafios. Mas, para encarar o Atlântico, em solitário e em um barco a remo, Amyr Klink precisou pensar em detalhes impressionantes como, por exemplo, aprender a extrair um dente em caso de necessidade.

Cada canto do pequeno barco precisaria ser muito bem aproveitado e o mais otimizado possível, já que o espaço que sobrava mal permitia que o navegador se sentasse com conforto. Os respiros precisavam ser abertos de hora em hora, para permitir que o ar entrasse e ventilasse um pouco a sufocante cabine. Mas, mesmo nessas condições, Amyr se sentia em casa. Afinal, estava no mar, a bordo de um barco. O que mais ele poderia querer?

Os maiores desafios
Como era de se esperar, Amyr Klink enfrentou algumas das piores situações que um ser humano é capaz de suportar. Fora a companhia de tubarões, três capotagens, a proximidade com a Costa dos Esqueletos e o absurdo esforço físico a que era submetido, em uma manhã de domingo ele colocou, definitivamente, a sua força de vontade à prova.

O mar, completamente cinza, roncava extremamente agitado. Amyr tentou começar a remada logo cedo, mas teve que voltar para a pequena cabine e aproveitar a "folga" para descansar e colocar a "casa" em ordem. Como o vento soprava muito firme, mas em direção favorável, o navegador percebeu que mesmo sem remar poderia avançar durante o mau tempo. Recolheu a âncora e deixou a sorte comandar a embarcação. O risco era grande. As ondas laterais poderiam capotar o barco. E depois de três capotagens anteriores, isso era tudo o que ele não poderia suportar.

O navegador permaneceu deslizando ao sabor do temporal e, após algumas horas de sono, percebeu que a situação estava cada vez pior. O barômetro indicava que tão cedo as condições não melhorariam. Amyr não conseguiria enfrentar o mar naquelas condições. O melhor era ter paciência e aguardar a hora certa de continuar em frente. Uma espera longa...

No total, foram sete dias de reclusão, dentro do compartimento apertado, sacudido por ondas gigantescas, sem poder colocar o rosto para fora, na expectativa de um golpe mais forte, de uma onda que acertasse em cheio a frágil embarcação. Foram momentos em que qualquer pessoa se sentiria desconfortável ou desesperada, mas não Amyr Klink: "Nada é mais certo do que a chegada de um bom tempo após uma tempestade que parece interminável."

No oitavo dia de tempestade, os remos finalmente voltaram para a água. Apesar de ter certeza de que teria progredido em latitude, Amyr não tinha noção de onde estava. Poderia ter avançado em direção ao norte da África ou para Santa Helena. Com o sol brilhando no céu, após alguns cálculos e muita expectativa, descobriu que estava na direção certa e em uma posição melhor do que a esperada: 400 milhas da costa africana mais próxima!

A chegada
Depois de enfrentar situações extremas e inesperadas, no início do centésimo dia de viagem Amyr não tinha mais certeza de quantos dias precisaria para alcançar a costa brasileira. Na saída, fez uma previsão realista de 109 dias, alguns amigos mais otimistas apostaram no 88 e a Marinha, em 120. Após o café da manhã e algumas horas de remo, Amyr se levantou para observar o horizonte e avistou um clarão: era ela, a costa da Bahia. Em um misto de surpresa e euforia, o cansaço desapareceu e o barco ficou mais leve.

Remou durante horas seguidas até que, pouco depois das 13 horas, lançou sua âncora nas areias de uma bela praia sossegada e de águas claras, a Praia da Espera. Parecia que tudo tinha terminado. Após tantas situações de aprendizado durante a viagem, nada mais poderia acontecer estando em terra firme. Engano. Ainda em meio a transmissões de rádio e comemorações, um pescador simplório chegou junto ao barco e perguntou: "Como foi a pescaria, moço?" "Não pesquei nada", respondeu Amyr. E o pescador, com toda sabedoria do mundo, disse: "A vida tem dessas coisas: em uns dias se consegue tudo, em outros não se pega nada. É como a maré, vai mais sempre volta." Deu duas sardinhas de presente ao navegador e foi embora.

 



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