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Na Estrada
Pico da Neblina (AM)
Autor: João Paulo Barbosa
Chegar ao ponto mais alto do Brasil, o Pico da Neblina, com 3.014 m de altitude, é um sonho para qualquer montanhista brasileiro. Encravada no noroeste do estado do Amazonas, essa montanha em forma triangular já atraiu andarilhos de diversos outros países. »»»
Mesmo com o status de ser o topo do Brasil (e o ponto mais alto da América do Sul à parte dos Andes), é um lugar muito pouco visitado. O livro de registro de entrada no Parque Nacional do Pico da Neblina mostra que menos de 300 pessoas já tiveram o privilégio de estar no meio da famosa neblina, que dá o nome ao pico.
Uma verdadeira expedição
Realizei duas expedições dentro do Parque Nacional do Pico da Neblina, que junto com o seu vizinho venezuelano Parque Nacional de La Neblina forma a segunda maior área ambiental protegida do mundo. A primeira expedição aconteceu em 1996, quando tive a oportunidade de conviver durante 12 dias com um grupo de índios ianomâmis, e também, de acampar no cume do pico, com mais três colegas e dois índios.
A segunda expedição, em dezembro de 1999, confirmou-me o que eu tinha percebido antes: alcançar o topo do Pico da Neblina significa percorrer a trilha mais difícil do Brasil. Nessa ocasião passei a noite, com mais seis companheiros, no topo do 31 de Março, a segunda maior montanha do país, com 2.992 m.
Planejamento, logística, trabalho em equipe, preparo físico e persistência mental são palavras essenciais em uma expedição ao Pico da Neblina. E que não fique só nas palavras, mas que se tornem ação. Afinal, o isolamento é absoluto e as possibilidades de resgate são quase nulas.
A trilha mais nobre do Brasil
O ponto de partida é a cidade de São Gabriel da Cachoeira, distante 850 km de Manaus. De avião, são três horas de viagem. De barco, três dias. São Gabriel é uma das cidades mais importantes da Amazônia. Assistir ao sol nascendo atrás da Bela Adormecida, um dos morros da Serra do Curicuriari, sentado nas areia brancas da praia de São Gabriel da Cachoeira incita momentos de paz e reflexão.
A BR-307, conhecida como Frente Sul, liga São Gabriel da Cachoeira a Cucuí, cidade mais ao norte onde está a famosa Pedra de Cucuí, futuro paraíso de escaladas em rocha. A estrada é de terra e cheia de buracos. Na época mais chuvosa, nem pense em ir sem um 4x4. O primeiro passo é chegar ao km 85, onde, à direita, encontra-se o igarapé do Lá Mirim, que significa "português" na língua ianomâmi.
O procedimento usual é passar todos os equipamentos, alimentos e, em média, quase 300 litros de gasolina para dentro da "voadeira", pequeno barco a motor, de no máximo 45 HP. Dependendo da época do ano (de setembro a novembro chove menos) o nível da água pode ajudar ou não o deslocamento de 180 km, de ida e volta, pelos rios. Há épocas em que o rio baixa até 9 metros, o que já causou várias colisões de barcos em pedras. Em linha reta, entre a partida do Lá Mirim até o início da trilha, a "boca" do Tucano, a distância não passa de 70 km. São curvas e mais curvas, onde cada ângulo se torna um espetáculo à parte.
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